Toda consolação que a mente quer é feita de acabar-se. Que ela queira o que imagina ou partes do que houver, tudo a abandona, tudo some à beira,
às vésperas da festa. É uma fogueira ávida o que ela inventa, porque ser é ir deixando de ser e a vida inteira é isso, é um fulgurante anoitecer.
Bate na sombra a luz do corpo, é escuro o jardim que ele habita, um vaga-lume incapaz de passar daquele muro
que o sufoca e ele investe de um perfume, de uma fosforescência que resume, não resolve, o seu drama morituro.
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Porque pertence ao instinto natural desejar, cortejar o passageiro, o coração em busca do real é como um perdigueiro atrás do cheiro
fugitivo da vida, um perdigueiro imaginando a presa. Mas o mal do pensamento é abandonar o efêmero, trocá-lo pelos ossos do Ideal,
e o pobre perdigueiro pouco a pouco desiste da aventura da caçada e desenterra um ossuário. Rouco
de ladrar noite adentro contra o nada, no coração há um perdigueiro louco: o que Uccelo soltou contra a alvorada.
Bruno Tolentino, em “O mundo como Idéia”
***
“Provavelmente porque o ser se intranqüiliza de já não ser o que ia sendo; intensamente, porque as fogueiras de um martírio impenitente são seus triunfos, seus troféus cheios de cinza;
e finalmente porque tudo o que agoniza quer promulgar, solenizar o impermanente, o coração, naquele fundo ambivalente da coisa humana, momentâneo como a brisa,
mas persuadido de que as músicas da mente hão de reter do ser algo mais que uma soma, o coração vive das sombras de um aroma.
Só muito raramente esse iludido sente a força de acordar antes que a luz cadente o deixe louco como à mosca na redoma.”
Bruno Tolentino, Soneto I.1 de “A imitação do amanhecer”
***
IN PASSIM Tudo vai-se acabando, tudo passa do que é ao que era. É tudo mais ou menos uns vestígios de fumaça no espaço do que deixas para trás. E tudo o que deixaste ou deixarás de manso ou de repente, sem que faça diferença nenhuma no fugaz, é assim como a garoa na vidraça: intimações de lágrima delida. Não valeu chorar nada. Nem te atrevas a lamentar-te à porta da saída, pois pouco importa a vida como a levas, que ela te leva a ti, de despedida em despedida, a uma lição de trevas. Bruno Tolentino, em “O mundo como Idéia”
6 comentários:
Eu sugiro uma boa topada de dedo num canteiro. Faz você ver as coisas de outra forma. :D
"Always look on the briiiiight side of life.." tchuru, tchuru, tchuru tchuru tchuru.
Ou então:
"Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo"
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Toda consolação que a mente quer
é feita de acabar-se. Que ela queira
o que imagina ou partes do que houver,
tudo a abandona, tudo some à beira,
às vésperas da festa. É uma fogueira
ávida o que ela inventa, porque ser
é ir deixando de ser e a vida inteira
é isso, é um fulgurante anoitecer.
Bate na sombra a luz do corpo, é escuro
o jardim que ele habita, um vaga-lume
incapaz de passar daquele muro
que o sufoca e ele investe de um perfume,
de uma fosforescência que resume,
não resolve, o seu drama morituro.
14
Porque pertence ao instinto natural
desejar, cortejar o passageiro,
o coração em busca do real
é como um perdigueiro atrás do cheiro
fugitivo da vida, um perdigueiro
imaginando a presa. Mas o mal
do pensamento é abandonar o efêmero,
trocá-lo pelos ossos do Ideal,
e o pobre perdigueiro pouco a pouco
desiste da aventura da caçada
e desenterra um ossuário. Rouco
de ladrar noite adentro contra o nada,
no coração há um perdigueiro louco:
o que Uccelo soltou contra a alvorada.
Bruno Tolentino, em “O mundo como Idéia”
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“Provavelmente porque o ser se intranqüiliza
de já não ser o que ia sendo; intensamente,
porque as fogueiras de um martírio impenitente
são seus triunfos, seus troféus cheios de cinza;
e finalmente porque tudo o que agoniza
quer promulgar, solenizar o impermanente,
o coração, naquele fundo ambivalente
da coisa humana, momentâneo como a brisa,
mas persuadido de que as músicas da mente
hão de reter do ser algo mais que uma soma,
o coração vive das sombras de um aroma.
Só muito raramente esse iludido sente
a força de acordar antes que a luz cadente
o deixe louco como à mosca na redoma.”
Bruno Tolentino, Soneto I.1 de “A imitação do amanhecer”
***
IN PASSIM
Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.
E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:
intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,
pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.
Bruno Tolentino, em “O mundo como Idéia”
Álcool.
Pedindo licença ao Rosa:
Quando nada acontece, há um milagre que estamos sendo...
Durma dias.Literalmente.
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