Danço à moda de Jun e a certo ponto da noite F se aproxima e faz a piada em meu ouvido:
- E aí? Conseguiu tirar aquela sujeira balançando a cabeça assim ou o ouvido ainda está entupido?
Não estava. Mas parei para pensar por que costumo dançar assim, a cabeça balançando e uma das mãos ao ouvido, assim como S dança com a mão na barriga, como se um bolero solitário.
Billy Elliot surge em minha memória: sua professora lhe conta a história de Lago dos cisnes, em qua uma mulher, transformada em cisne por uma feiticeira, à noite tem a chance de se livrar da penugem e voltar a ser mulher por alguns instantes. Da mesma forma Billy se sente liberto. Descreve que, quando dança, se sente como a própria eletricidade, energia pura, e tudo mais desaparece.
Talvez haja algo em meu ouvido, umas falas repetidas e incômodas - que talvez S sinta em si como uma má digestão, ou uma ausência de par - das quais me livro momentaneamente lá pelo terceiro copo ou a quinta música. Então tomo coragem e esperneio a cabeça para ver se sai de uma vez essa cera que vai contra que eu ouça o que me dizem e distorce tudo e me impede de viver as coisas imediatamente.
Não almejo eliminar a mediação, aquele "entre" permitindo a própria conversa. Falo de me livrar desse acúmulo todo que se interpõe, ceroso, a cada experiência, dela me distancia e me mantém preso às marcas feitas à cera pelas sensações passadas - às quais tudo agora parece dever se adequar.
O presente nunca chega. Imagino que fosse essa a situação de Platão: tinha à frente de si o jovem, formoso, curioso Teeteto. Podiam conviver, talvez até trepassem, mas ainda assim as impressões anteriores do velho amante não lhe permitiam vivenciar tudo aquilo, perdido na nostalgia que estava. A cada dia juntos se espantava com ver um em outro e, ainda assim, a confusão não gerava uma substituição: Teeteto nunca poderia ser o bom e velho Sócrates. Sem nem um nem outro, só lhe restou filosofar, distanciado da vida.
Creio que a mim ainda resta dançar. Pouco a pouco, creio, a cera se derrete no calor do corpo e me aproximo um pouco mais desse presente o tempo todo correndo de mim. Quem sabe um dia não pipoca do ouvido uma pelota vermelha e eu chego lá?
- E aí? Conseguiu tirar aquela sujeira balançando a cabeça assim ou o ouvido ainda está entupido?
Não estava. Mas parei para pensar por que costumo dançar assim, a cabeça balançando e uma das mãos ao ouvido, assim como S dança com a mão na barriga, como se um bolero solitário.
Billy Elliot surge em minha memória: sua professora lhe conta a história de Lago dos cisnes, em qua uma mulher, transformada em cisne por uma feiticeira, à noite tem a chance de se livrar da penugem e voltar a ser mulher por alguns instantes. Da mesma forma Billy se sente liberto. Descreve que, quando dança, se sente como a própria eletricidade, energia pura, e tudo mais desaparece.
Talvez haja algo em meu ouvido, umas falas repetidas e incômodas - que talvez S sinta em si como uma má digestão, ou uma ausência de par - das quais me livro momentaneamente lá pelo terceiro copo ou a quinta música. Então tomo coragem e esperneio a cabeça para ver se sai de uma vez essa cera que vai contra que eu ouça o que me dizem e distorce tudo e me impede de viver as coisas imediatamente.
Não almejo eliminar a mediação, aquele "entre" permitindo a própria conversa. Falo de me livrar desse acúmulo todo que se interpõe, ceroso, a cada experiência, dela me distancia e me mantém preso às marcas feitas à cera pelas sensações passadas - às quais tudo agora parece dever se adequar.
O presente nunca chega. Imagino que fosse essa a situação de Platão: tinha à frente de si o jovem, formoso, curioso Teeteto. Podiam conviver, talvez até trepassem, mas ainda assim as impressões anteriores do velho amante não lhe permitiam vivenciar tudo aquilo, perdido na nostalgia que estava. A cada dia juntos se espantava com ver um em outro e, ainda assim, a confusão não gerava uma substituição: Teeteto nunca poderia ser o bom e velho Sócrates. Sem nem um nem outro, só lhe restou filosofar, distanciado da vida.
Creio que a mim ainda resta dançar. Pouco a pouco, creio, a cera se derrete no calor do corpo e me aproximo um pouco mais desse presente o tempo todo correndo de mim. Quem sabe um dia não pipoca do ouvido uma pelota vermelha e eu chego lá?
4 comentários:
O vazio, a dança e tudo continua.
Pra quem pensava que cera de ouvido nunca se poderia fazer poema...
Belo texto... mas queria ver (de ver pra valer) essa tal dança!
o mais legal é que F não falou de cera, mas de água. mas você conseguiu imagens melhores ainda com a cera do que teria conseguido com a água. já percebi a mão de S. hahaha. agora, da última vez que rolaram esses pseudôminos não deu muito certo...
mas o texto tá ótimo. ficou uma equação ouvido limpo = nirvana.
Postar um comentário