sábado, 8 de novembro de 2008

Ressaibo

Danço à moda de Jun e a certo ponto da noite F se aproxima e faz a piada em meu ouvido:
- E aí? Conseguiu tirar aquela sujeira balançando a cabeça assim ou o ouvido ainda está entupido?
Não estava. Mas parei para pensar por que costumo dançar assim, a cabeça balançando e uma das mãos ao ouvido, assim como S dança com a mão na barriga, como se um bolero solitário.
Billy Elliot surge em minha memória: sua professora lhe conta a história de Lago dos cisnes, em qua uma mulher, transformada em cisne por uma feiticeira, à noite tem a chance de se livrar da penugem e voltar a ser mulher por alguns instantes. Da mesma forma Billy se sente liberto. Descreve que, quando dança, se sente como a própria eletricidade, energia pura, e tudo mais desaparece.
Talvez haja algo em meu ouvido, umas falas repetidas e incômodas - que talvez S sinta em si como uma má digestão, ou uma ausência de par - das quais me livro momentaneamente lá pelo terceiro copo ou a quinta música. Então tomo coragem e esperneio a cabeça para ver se sai de uma vez essa cera que vai contra que eu ouça o que me dizem e distorce tudo e me impede de viver as coisas imediatamente.
Não almejo eliminar a mediação, aquele "entre" permitindo a própria conversa. Falo de me livrar desse acúmulo todo que se interpõe, ceroso, a cada experiência, dela me distancia e me mantém preso às marcas feitas à cera pelas sensações passadas - às quais tudo agora parece dever se adequar.
O presente nunca chega. Imagino que fosse essa a situação de Platão: tinha à frente de si o jovem, formoso, curioso Teeteto. Podiam conviver, talvez até trepassem, mas ainda assim as impressões anteriores do velho amante não lhe permitiam vivenciar tudo aquilo, perdido na nostalgia que estava. A cada dia juntos se espantava com ver um em outro e, ainda assim, a confusão não gerava uma substituição: Teeteto nunca poderia ser o bom e velho Sócrates. Sem nem um nem outro, só lhe restou filosofar, distanciado da vida.
Creio que a mim ainda resta dançar. Pouco a pouco, creio, a cera se derrete no calor do corpo e me aproximo um pouco mais desse presente o tempo todo correndo de mim. Quem sabe um dia não pipoca do ouvido uma pelota vermelha e eu chego lá?

4 comentários:

André Luís Borges de Oliveira disse...

O vazio, a dança e tudo continua.

Click disse...

Pra quem pensava que cera de ouvido nunca se poderia fazer poema...

Click disse...

Belo texto... mas queria ver (de ver pra valer) essa tal dança!

fernanda disse...

o mais legal é que F não falou de cera, mas de água. mas você conseguiu imagens melhores ainda com a cera do que teria conseguido com a água. já percebi a mão de S. hahaha. agora, da última vez que rolaram esses pseudôminos não deu muito certo...

mas o texto tá ótimo. ficou uma equação ouvido limpo = nirvana.