sábado, 20 de novembro de 2010

Foi aquela série de bobagens encarreiradas. Eu devia ter respondido de forma curta, com apenas mais uma pergunta absurda, às outras que ele me tinha feito. Minha resposta seria: "Mas, senhor, é possível ter saudade do que não foi?"
Temo, no entanto, que não seria muito convincente. Pelo contrário, deixaria em aberto a dúvida, como costumam deixar as perguntas -- principalmente aquelas cujas respostas não são claras e certas.
Temo na verdade que seria muito convincente e provaria justo aquilo que eu queria desmentir: é claro que é possível. No fundo, é apenas do que não foi que se pode ter saudade. O que foi é mera referência do que pode voltar a ser, mas ainda não é.
Ou será ainda que não? Talvez a saudade possa ser frequentemente do que foi e não volta, do que não pode vir a ser, do irrecuperável, do morto e enterrado.
E esse sentimento pelo que não foi e esperamos que seja, então, como se chamaria? Uma esperança que quase se realizou, mas nos decepcionou, e sobre a qual nem se tem mais muita certeza se pode se realizar ainda tanto tempo passado. E pensamos então em como poderia ter sido e é ainda uma certa esperança que olha para trás, como se aquele instante interrompido pudesse voltar -- e talvez de alguma maneira possa. E não possa, pois não seria mais aquele instante.
Ou a saudade então se volta para trás, para aquilo que perdemos, mas querendo que aquilo que está atrás se lance à nossa frente em nosso futuro para fazer parte do presente? E seria então por isso que ela nos rasga ao meio, ou ainda nos torce a espinha que se esforça por virar para trás e puxar com força algo que, enraizado que está, não pode voltar? Seríamos todos Orfeus condenados a quase recuperar Eurídice, mas a perdê-la no último instante?

Um comentário:

Madame S. disse...

Prefiro a analogia com Sísifo... Acho que estamos condenados a rolar a pedra até o cume, e depois rolar novamente....

Há sempre a saudade, e há sempre matar a saudade.

Tb penso que a saudade não existe por si, é resultado do que escolhemos para que ela seja. Então ela pode ser tudo... desde que faça sentido p/ vc. Então pode ser que seja o olhar de Orfeu, também.

Mas.. especialmente, nós... cancerianos. Me parece que estamos sempre um pouco mais nostálgicos, ou não?

Belo post.

Bj enorme, querido.