Foi aquela série de bobagens encarreiradas. Eu devia ter respondido de forma curta, com apenas mais uma pergunta absurda, às outras que ele me tinha feito. Minha resposta seria: "Mas, senhor, é possível ter saudade do que não foi?"
Temo, no entanto, que não seria muito convincente. Pelo contrário, deixaria em aberto a dúvida, como costumam deixar as perguntas -- principalmente aquelas cujas respostas não são claras e certas.
Temo na verdade que seria muito convincente e provaria justo aquilo que eu queria desmentir: é claro que é possível. No fundo, é apenas do que não foi que se pode ter saudade. O que foi é mera referência do que pode voltar a ser, mas ainda não é.
Ou será ainda que não? Talvez a saudade possa ser frequentemente do que foi e não volta, do que não pode vir a ser, do irrecuperável, do morto e enterrado.
E esse sentimento pelo que não foi e esperamos que seja, então, como se chamaria? Uma esperança que quase se realizou, mas nos decepcionou, e sobre a qual nem se tem mais muita certeza se pode se realizar ainda tanto tempo passado. E pensamos então em como poderia ter sido e é ainda uma certa esperança que olha para trás, como se aquele instante interrompido pudesse voltar -- e talvez de alguma maneira possa. E não possa, pois não seria mais aquele instante.
Ou a saudade então se volta para trás, para aquilo que perdemos, mas querendo que aquilo que está atrás se lance à nossa frente em nosso futuro para fazer parte do presente? E seria então por isso que ela nos rasga ao meio, ou ainda nos torce a espinha que se esforça por virar para trás e puxar com força algo que, enraizado que está, não pode voltar? Seríamos todos Orfeus condenados a quase recuperar Eurídice, mas a perdê-la no último instante?
Um comentário:
Prefiro a analogia com Sísifo... Acho que estamos condenados a rolar a pedra até o cume, e depois rolar novamente....
Há sempre a saudade, e há sempre matar a saudade.
Tb penso que a saudade não existe por si, é resultado do que escolhemos para que ela seja. Então ela pode ser tudo... desde que faça sentido p/ vc. Então pode ser que seja o olhar de Orfeu, também.
Mas.. especialmente, nós... cancerianos. Me parece que estamos sempre um pouco mais nostálgicos, ou não?
Belo post.
Bj enorme, querido.
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