Minha vida de hoje não é metade da aventura que eu esperava que fosse, digamos, "há dez anos atrás". Passo um feriado viajando com minha mãe, minha testa tem cada vez menos cabelos, faço um mês de natação e ganho dois quilos. Os maiores desafios do meu cotidiano são correr contra prazos da editora, escrever monografias, me controlar para fumar menos.
OK, eu vou para a Europa em dezembro, não tenho dúvidas de que vai ser ótimo. Ainda assim, é só isso que nos guarda a vida adulta? Onze meses insossos para que tentemos compensar nosso tédio em um mês de viagens em larga medida previsíveis? Soube sempre que é assim a vida adulta, observei-a a meu redor enquanto crescia, mas algo sempre leva a estúpida juventude a crer que, quando chegar sua vez de crescer, tudo será diferente. Que não cederemos à burocracia circundante. No entanto, o maior de meus planos atuais é conseguir uma vaga em uma instituição pública na qual possa gozar de... estabilidade, férias longas, um bom salário, tempo para estudar.
O que disso já tenho? Tudo, menos a estabilidade. Alunos me cercam na minha caixa de e-mails para justificar faltas. Colegas de trabalho se queixam de seus grandes inimigos - os alunos - e bolam estratégias mirabolantes para impedir que eles se aproveitem das brechas legais da instituição.
Como tornar uma vida grandiosa? Não basta a intenção, não basta o esforço, e isso já é motivo que baste para que não me esforce. Para que aguarde um inesperado enquanto peno para me adaptar e co-construir uma realidade cada vez mais ordinária. Eu quero construir a muralha da China! Eu quero um grande processo que me consuma décadas de minha vida por um bem maior que minha geração sequer conhecerá!
Será que sofro de um romantismo tardio (não só pelo século em que vivo, mas pela idade que tenho, na qual já deveriam ter cessado os sonhos de me lançar ao mar)? Será que repetirei, a cada ano, meu numericamente renovado - porém repetitivo - - além de inautêntico - lamento?
24 anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado
Que diferença faz afinal a inautenticidade? Se eu me chamasse Carlos Drummond de Andrade, isso não seria sequer uma rima, muito menos uma solução. Afinal, por acaso, rimei sem intenção, agora relendo percebo.
Continuarei contando com o acaso - esse deus que é meu único motivo -, por mais que lhe reserve cada vez menos espaço em meu cotidiano embrutecido.
4 comentários:
bem vindo ao meu mundo.
vamos cantar Teatro dos Vampiros juntos? ;p
Juuun.
É bom que seja assim, de vez em quando. Só pra gente não perder o hábito de se libertar. É preciso arte, não é mesmo?
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