segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Um dia para roupas sóbrias

Esse domingo me peguei pensando: o Faustão está na TV desde que me entendo por gente, sempre dizendo as mesmas coisas, fazendo as mesmas piadas. Talvez ele nem exista mais e o que vemos seja apenas um robô com pele de borracha e uma boa maquiagem. Ou ainda um ator fantasiado de Faustão. É ainda possível que ninguém grave mais programas do Faustão, e os programas que vemos[1] sejam apenas trechos antigos recombinados de modo a dar-lhes aparência de novidade. No fundo, ainda que ele exista, tanto faz em todos os sentidos: há tempos que programas como o dele são apenas recombinações de ideias antigas, do mais do mesmo, do já dito e redito massacrante e/ou anestesiante de nossas mentes ávidas por imagens coloridas – ao que tudo indica, em um nível até mesmo fisiológico.

O que me pergunto tem pouco ou nada a ver com isso. É só que, olhando aquela figura, e supondo que ele ainda exista como ser humano, penso se ainda lhe resta alguma humanidade. Aliás, se a resposta for não, custa-me crer que ainda seja ser humano, ainda que fisiologicamente um médico diagnostique um funcionamento perfeito de seus órgãos, sua boa forma física e tais e tais.[2]

Haverá um dia em que Faustão, em seu carro em algum engarrafamento pelas ruas centrais de São Paulo. Não haverá: Faustão muito provavelmente anda de helicóptero. Pois haverá um dia em que Faustão, em seu helicóptero sobrevoando a grande metrópole brasileira, olhará do alto das asas que a voz do povo deu a ele, nosso grande mensageiro alado, e verá a infinidade de caminhos possíveis dentre as malhas de vias e desvios da cidade?

Por que ainda faço esse mesmo programa há duas décadas, se perguntaria. Quando comecei no Perdidos na Noite, o ar cheirava a festa, tinha gosto de inovação, me arrepiava o frenesi do ao vivo e improvisado. Hoje me embruteci, me tornei um grande repetidor de conteúdos prontos, de merchandisings de agiotas disfarçados de pessoas jurídicas e piadas sobre o pobre do Caçulinha. A amizade entre nós certamente é um dos pontos altos, mas ele mesmo já me parece um pouco cansado de minhas gracinhas. Como não me canso eu? Por que continuamos os dois insistindo na mesma atividade? Lucrativa, decerto. Satisfatória, porém? Como pode ter acontecido que eu nunca tenha percebido a mediocridade do que faço? E se eu tirasse um ano sabático e fizesse um curso de gastronomia e enologia em algum lugar aprazível da costa mediterrânea?

Acabou por concluir que não seria o suficiente: não bastava tirar férias. Com o dinheiro ganho em todos aqueles anos de escravidão, podia passar o resto da vida confortavelmente de férias. Podia ainda abrir o restaurante que sonhava ter ainda na infância. Por que tanto me guarda qui na cucina, perguntava la Nonna. É pra aprender, vó. Eu vou ser... como se diz o nome da pessoa que tem restaurante? Avere e cucinare sono cose diverse, ragazzino, dizia a avó, desde já com a melhor das intenções[3] regulando e esquartejando os sonhos do menino.

Chegou em casa sem apetite, fosse por determinantes fisiológicas ou psicológicas. A casa vazia à exceção das crianças vigiadas pela babá no andar inferior do apartamento, foi para o computador. Em algum lugar haveria de estar aquele e-mail antigo, mala direta privilegiada. Usuário e senha para acesso ao site de uma agência de imóveis de luxo – a maioria dos quais no exterior. VIH, um nome cafona para uma empresa.

Como se fosse necessário calcular despesas, comparou preços, anotou peculiaridades, tendeu ao sul da Espanha, apaixonou-se por um casebre em Lanzarote – já não teria visto aquelas paisagens vulcânicas em algum filme? –, conferiu ranchos em Limoges. Preços anotados e pesados, achou que talvez fosse tarde para entrar em contato com algum agente. Além do mais, não posso ir solteiro, o que iriam pensar? Melhor me reunir com a família e discutir nossas opções.

Cansado, deitou-se na banheira enquanto telefonava, ignorando o risco de eletrocussão na nova fase aventureira de sua vida. Amor, ainda no trânsito, sim, claro, não saia antes de falar comigo amanhã, tive uma ideia, não, depois eu te conto, é uma coisa longa, OK beijo te amo.

As últimas palavras tiveram um sabor de primeiro encontro como há muito não sentia. Não só novos paladares, mas também prazeres pareciam à sua espera. Escondidos atrás das portas de sua casa ainda desconhecida, ou debaixo da escada, da cama, entre o teto e o telhado – se sua nova habitação comportasse tanta sofisticação.

Adormeceu ainda imerso. Algumas horas depois, acordou com o toque do celular. Fausto, o Caçulinha amanheceu esfaqueado em um motel barato. Parece ser obra de garoto de programa ou travesti. Marcas profundas de socos, algumas fraturas. Não, não sobreviveu, não foi ao hospital, não faria muita diferença.

Talvez fosse melhor dar mais algumas semanas. Não podia abandonar tudo daquele jeito naquela situação. Vestiu-se rapidamente[4] e partiu em direção ao hotel. A Europa podia esperar. Talvez ainda alguns meses, o especial de Natal da emissora está próximo e todos contam comigo para apresentá-lo.



[1] Ou não vemos. Tanto faz em todos os sentidos.

[2] Hipótese favorecida pela recente cirurgia bariátrica.

[3] Como se as intenções das avós fizessem alguma diferença no efeito mormente danoso de suas ações sobre os netos.

[4] Não com aquelas camisas brilhantes e coloridas da época da Copa do Mundo, é claro. Se não percebeu, eram apenas parte do figurino designado pela direção; eu não teria tanto mau gosto.

3 comentários:

Juliana disse...

uou.
isso tá realmente legal.

Raven disse...

gnt, viagem de lsd é menos foda que esse texto! ;p

fernanda disse...

ah,

por isso que o faustão tá mais magro