E talvez meu gozo tenha a ver com as quantidades talvez excessivas de horas dormidas.
Enquanto o sol está azul lá fora, não o vejo, mas o ouço com Stravinsky. As cores se aproximando aos poucos, os pássaros começando a cantar, o céu rosaceando até o grande vermelho, cheio de impacto e percussão.
É primavera, minha gente! É proibido se matar na primavera! Mas se matam, ô se se matam.
Passei dias de bigode esperando fazer um pai de família ontem no teatro. Meu grupo faltou e fiz uma travesti. De bigodes e turbante.
Na saída, encontro com a queridérrima professora de um curso que estou fazendo na pós-mod..., digo, pós-graduação. Algo que me incomoda muito nela é o modo teatral ou exagerado com que faz tudo. Cumprimenta, dá aula, anda, tudo: sempre muito simpática, gestual, voz cheia de tonalidades. Até rompe a quarta parede, interage com a plateia (representada pelos alunos) pegando comida deles, que se espantam como se a atriz diva os interpelasse no meio da peça.
A aula é um pouco zoneada, no sentido de todo mundo falar o que vem à cabeça para exeplificar o modernismo, os pós-modernismos ou o que quer que esteja sendo discutido no momento. Todo mundo tem exemplos pra tudo. E a aula fica um tanto sem rumo, muito celebratória do que, creio, nem é nada a se celebrar. Prefiro a primavera! A professora elogia a turma, dizendo que somos muito chiques, porque trazemos muita coisa diferente, repertório pra ela. Eu não trago, só contesto. Às vezes também ela diz que nos falta repertório para entender certas coisas. Eu só consigo pensar em contra-exemplos para cada teoria que trabalhamos. Não sei se dá pra acreditar nesses -ismos, nessas -ades todas. Mas a pós-modernidade me permite ser descrente dela. Ê pós-modernidade! Querendo ou não, estou dentro!
No caixa do banco, encontro com ela, ali em Laranjeiras. Eu na fila do caixa eletrônico, ela pegando dinheiro, de costas, dando leves viradinhas para trás para sorrir enquanto o visor mandava aguardar.
- Karla?
- ...
- Karla Balachim?
- Juuuuuun! Tudo bom?
- Tudo bom. E aí? Fazendo o tour de sábado pelo bairro?
- É, minha mãe mora aqui perto.
- Ah.
- Você mora por aqui também?
- Não, tô saindo da CAL.
- Ah, você faz teatro lá?
- Faço. (Pausa)Mas não tenho repertório!
- (Risadinha leve e sem graça, mas simpática. Essa palavra, né? A gente fala tanto nela, né?
- E você, faz teatro onde?
Não perguntei. Mas pensei. Ela sem dúvida treinou muito antes de entrar pela primeira vez numa sala. Quisera eu dar uma de Oficina e tirar a roupa dela no meio da aula, na frente de todos. Seria uma cena linda: os alunos a jogam na mesa quadrada em torno da qual nos sentamos de hábito. Todos se jogam sobre a mesa, como leões famintos, e arrancam as roupas da professora. Se ela entrasse no jogo, eu até passaria a gostar mais dela. Mas acho difícil. Ali ela ficaria ptolomaica rapidinho, ou, ainda, medieval mesmo, puritana, e fugiria dos alunos bacantes enlouquecidos. Não sobraria teatro nenhum, além do nosso. Nós poderíamos continuar, sozinhos, ao som do "Sacrifício" de Stravinsky. Ou então segui-la, nus, pelos corredores da Faculdade de Letras, e então se juntariam a nós todos os alunos, entusiasmados com o despertar da primavera.
- Karla, queremos comer-te! É só um tropicalismozinho!
Enquanto o sol está azul lá fora, não o vejo, mas o ouço com Stravinsky. As cores se aproximando aos poucos, os pássaros começando a cantar, o céu rosaceando até o grande vermelho, cheio de impacto e percussão.
É primavera, minha gente! É proibido se matar na primavera! Mas se matam, ô se se matam.
Passei dias de bigode esperando fazer um pai de família ontem no teatro. Meu grupo faltou e fiz uma travesti. De bigodes e turbante.
Na saída, encontro com a queridérrima professora de um curso que estou fazendo na pós-mod..., digo, pós-graduação. Algo que me incomoda muito nela é o modo teatral ou exagerado com que faz tudo. Cumprimenta, dá aula, anda, tudo: sempre muito simpática, gestual, voz cheia de tonalidades. Até rompe a quarta parede, interage com a plateia (representada pelos alunos) pegando comida deles, que se espantam como se a atriz diva os interpelasse no meio da peça.
A aula é um pouco zoneada, no sentido de todo mundo falar o que vem à cabeça para exeplificar o modernismo, os pós-modernismos ou o que quer que esteja sendo discutido no momento. Todo mundo tem exemplos pra tudo. E a aula fica um tanto sem rumo, muito celebratória do que, creio, nem é nada a se celebrar. Prefiro a primavera! A professora elogia a turma, dizendo que somos muito chiques, porque trazemos muita coisa diferente, repertório pra ela. Eu não trago, só contesto. Às vezes também ela diz que nos falta repertório para entender certas coisas. Eu só consigo pensar em contra-exemplos para cada teoria que trabalhamos. Não sei se dá pra acreditar nesses -ismos, nessas -ades todas. Mas a pós-modernidade me permite ser descrente dela. Ê pós-modernidade! Querendo ou não, estou dentro!
No caixa do banco, encontro com ela, ali em Laranjeiras. Eu na fila do caixa eletrônico, ela pegando dinheiro, de costas, dando leves viradinhas para trás para sorrir enquanto o visor mandava aguardar.
- Karla?
- ...
- Karla Balachim?
- Juuuuuun! Tudo bom?
- Tudo bom. E aí? Fazendo o tour de sábado pelo bairro?
- É, minha mãe mora aqui perto.
- Ah.
- Você mora por aqui também?
- Não, tô saindo da CAL.
- Ah, você faz teatro lá?
- Faço. (Pausa)Mas não tenho repertório!
- (Risadinha leve e sem graça, mas simpática. Essa palavra, né? A gente fala tanto nela, né?
- E você, faz teatro onde?
Não perguntei. Mas pensei. Ela sem dúvida treinou muito antes de entrar pela primeira vez numa sala. Quisera eu dar uma de Oficina e tirar a roupa dela no meio da aula, na frente de todos. Seria uma cena linda: os alunos a jogam na mesa quadrada em torno da qual nos sentamos de hábito. Todos se jogam sobre a mesa, como leões famintos, e arrancam as roupas da professora. Se ela entrasse no jogo, eu até passaria a gostar mais dela. Mas acho difícil. Ali ela ficaria ptolomaica rapidinho, ou, ainda, medieval mesmo, puritana, e fugiria dos alunos bacantes enlouquecidos. Não sobraria teatro nenhum, além do nosso. Nós poderíamos continuar, sozinhos, ao som do "Sacrifício" de Stravinsky. Ou então segui-la, nus, pelos corredores da Faculdade de Letras, e então se juntariam a nós todos os alunos, entusiasmados com o despertar da primavera.
- Karla, queremos comer-te! É só um tropicalismozinho!
Um comentário:
"Ficaria ptolomaica ra-pi-diiinho"
É uma boa encontrar com ela, consideramos que vamos faltar essa semana..
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