"Porque, afinal, meu celular não tem mais números gravados nem mensagens, e a vontade sincera é de atirá-lo varanda abaixo. Desconfio que talvez não seja bem a queda do celular a desejada. Imagino o corpo em queda e então não seria como submersão, em que se pode voltar à tona. É assustador e delicioso o vento batendo no rosto, como se voasse.
Parece que, a cada tentativa e invariável erro, o buraco é mais fundo e a crise mais forte. E eu vou me desligando do orkut, do msn, das coisas, das pessoas. Quando menos falta sinto delas, menos falta sinto de mim, menos e menos indispensável."
***
"Heidegger diz que não penso, e de fato, enquanto não o leio após tê-lo uma vez lido, pouco me parece que pensemos eu, Foucault, Nietzsche. Parece, de fato, que pensar cuidadosamente - redundância preguiçosa - só se faz quando se pensa o ser, ou , ainda, que o ser nos pede cuidado com o que quer que se pense. Difícil fica saber qual tema não é o ser.
Mas quero ter alguma preguiça e não pensar, ou ao menos tentar ter alguma, enquanto meu cuidado de perfeccionista permitir. Quero ter preguiça e pensar mesquinhamente a moral do Nietzsche. Quero saber se sou ou não sou um ressentido no final das contas. Quero saber se existe ser ou não ressentido sempre, pois me incomoda sê-lo muitas vezes por mais que o evite.
Me incomoda ser o ressentido que não sabe dar um fim ao que me incomoda. Me incomoda o sentimento de back-up friend que, ao mesmo tempo, parece não ter fundamento algum longe de minhas neuroses. Me incomoda não me livrar da obsessão de pensar o que outro pense, de até pensar pelo outro - e D. Corleone acha isso tão útil. Como me livrar da ânsia de viver pelos outros e tornar-lhes a vida mais aprazível, ainda que apenas àqueles que mais amo?
A solidão espreita e, o que é pior, não me parece assim tão ruim agora que passar dias e dias na cama não me é mais estranho. A vida de doente é cada vez mais cômoda, e não me assusta tanto assim ser sozinho (e de nada tenho mais medo nesse mundo).
Cada decepção é uma decepação. Fujo para casa e elimino sites, orkuts, as chamadas extensões de mim mesmo. E me pergunto enfim o que farei quando não houver mais nada a delere além desse meu corpo."
Essa descida assustadora me acompanha há alguns anos. De tempos em tempos cresce a intensidade, talvez a cada emocionante looping - como em uma montanha-russa - siga-se uma grande descida, mas mais provável mesmo é que não haja causalidade alguma e o brinquedo seja um chocalho, cujos grãos sacodem randomicamente enquanto se chocam um com os outros. Talvez seja mesmo um chocalho, mas um chocalho em queda, que afinal se esborrachará no chão, inevitavelmente.
Minha natureza pró-ativa, por um lado, não me deixa ignorar o compromisso profissional de assinar um contrato com meus futuros patrões amanhã para ficar na cama extendendo a bolha da tristeza ao máximo até que exploda e eu possa dela sair, consciente de que o tubinho de sabão está no bolso pronto para soprar uma nova. Um sentimento parecido me impede de recusar convites de amigos que eu gosto de ver, mas que, talvez, meu momento atual peça evitar.
Ao mesmo tempo, a natureza pró-ativa me diz que o mais seguro é apanhar o chocalho em queda, pingar-lhe algumas gotinhas de ácido, amarrar-lhe um pesinho de chumbo e acelerar sua inevitável queda e destruição.
A natureza pró-ativa me ajuda a resolver racionalmente muitos problemas. Principalmente o dos outros. Olhando o meu próprio penso que nunca resolvi o de ninguém.
Parece que, a cada tentativa e invariável erro, o buraco é mais fundo e a crise mais forte. E eu vou me desligando do orkut, do msn, das coisas, das pessoas. Quando menos falta sinto delas, menos falta sinto de mim, menos e menos indispensável."
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"Heidegger diz que não penso, e de fato, enquanto não o leio após tê-lo uma vez lido, pouco me parece que pensemos eu, Foucault, Nietzsche. Parece, de fato, que pensar cuidadosamente - redundância preguiçosa - só se faz quando se pensa o ser, ou , ainda, que o ser nos pede cuidado com o que quer que se pense. Difícil fica saber qual tema não é o ser.
Mas quero ter alguma preguiça e não pensar, ou ao menos tentar ter alguma, enquanto meu cuidado de perfeccionista permitir. Quero ter preguiça e pensar mesquinhamente a moral do Nietzsche. Quero saber se sou ou não sou um ressentido no final das contas. Quero saber se existe ser ou não ressentido sempre, pois me incomoda sê-lo muitas vezes por mais que o evite.
Me incomoda ser o ressentido que não sabe dar um fim ao que me incomoda. Me incomoda o sentimento de back-up friend que, ao mesmo tempo, parece não ter fundamento algum longe de minhas neuroses. Me incomoda não me livrar da obsessão de pensar o que outro pense, de até pensar pelo outro - e D. Corleone acha isso tão útil. Como me livrar da ânsia de viver pelos outros e tornar-lhes a vida mais aprazível, ainda que apenas àqueles que mais amo?
A solidão espreita e, o que é pior, não me parece assim tão ruim agora que passar dias e dias na cama não me é mais estranho. A vida de doente é cada vez mais cômoda, e não me assusta tanto assim ser sozinho (e de nada tenho mais medo nesse mundo).
Cada decepção é uma decepação. Fujo para casa e elimino sites, orkuts, as chamadas extensões de mim mesmo. E me pergunto enfim o que farei quando não houver mais nada a delere além desse meu corpo."
Essa descida assustadora me acompanha há alguns anos. De tempos em tempos cresce a intensidade, talvez a cada emocionante looping - como em uma montanha-russa - siga-se uma grande descida, mas mais provável mesmo é que não haja causalidade alguma e o brinquedo seja um chocalho, cujos grãos sacodem randomicamente enquanto se chocam um com os outros. Talvez seja mesmo um chocalho, mas um chocalho em queda, que afinal se esborrachará no chão, inevitavelmente.
Minha natureza pró-ativa, por um lado, não me deixa ignorar o compromisso profissional de assinar um contrato com meus futuros patrões amanhã para ficar na cama extendendo a bolha da tristeza ao máximo até que exploda e eu possa dela sair, consciente de que o tubinho de sabão está no bolso pronto para soprar uma nova. Um sentimento parecido me impede de recusar convites de amigos que eu gosto de ver, mas que, talvez, meu momento atual peça evitar.
Ao mesmo tempo, a natureza pró-ativa me diz que o mais seguro é apanhar o chocalho em queda, pingar-lhe algumas gotinhas de ácido, amarrar-lhe um pesinho de chumbo e acelerar sua inevitável queda e destruição.
A natureza pró-ativa me ajuda a resolver racionalmente muitos problemas. Principalmente o dos outros. Olhando o meu próprio penso que nunca resolvi o de ninguém.
2 comentários:
você se esconde mas mesmo assim eu te acho. saudades, garoto.
how the fuck did you?
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