quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O universo como espelho

O senhor Palomar sofre muito por causa das suas dificuldades nas relações com o próximo. Inveja as pessoas que têm o dom de encontrar sempre a coisa certa para dizer, o modo certo de se dirigir a cada um; que estão à vontade com quem quer que se encontrem e que põem os outros à vontade; que, movendo-se com ligeireza entre as pessoas, compreendem imediatamente quando se devem defender e tomar as suas distâncias e quando devem ganhar a simpatia e a confiança dos outros; que dão o melhor de si próprias na relação com os outros e que levam os outros a dar o seu melhor; que sabem logo quando podem contar com uma pessoa, em relação a si próprios e em termos absolutos.

"Estes dotes - pensa Palomar com o desgosto de quem não os tem - são coisas concedidas a quem vive em harmonia com o mundo. A esses sucede estabelecer naturalmente um acordo, não só com as pessoas mas também com as coisas, com os lugares, as situações e as ocasiões, com o deslizar das constelações no firmamento, com o agregar dos átomos nas moléculas. Aquela avalancha de acontecimentos simultâneos a que chamamos universo não derruba quem tem a sorte de saber escapar através dos interstícios mais finos, por entre as infinitas combinações, permutações e cadeias de consequências, evitando as trajectórias dos mortíferos meteoritos e interceptando em voo os raios benéficos. Para quem é amigo do universo, o universo é amigo. Pudesse alguma vez - suspira Palomar - ser eu também assim."

Decide-se a experimentar imitá-los. Todos os seus esforços, de agora em diante, irão no sentido de alcançar uma harmonia, quer com o género humano que lhe está próximo, quer com a espiral mais longínqua do sistema das galáxias. Para começar, dado que com o seu próximo tem demasiados problemas, Palomar procurará melhorar as suas relações com o universo. Afasta e reduz ao mínimo a convivência com os seus semelhantes; habitua-se a criar o vazio na sua mente, expelindo para fora dela todas as presenças indiscretas; observa o céu nas noites de estrelas; lê livros de astronomia, familiariza-se com a ideia dos espaços siderais, até que esta ideia se torna um ornamento permanente da sua decoração mental. Em seguida procura fazer com que os seus pensamentos tenham em conta contemporaneamente as coisas mais próximas e as mais longínquas; quando acende o cachimbo, a atenção pela chama do amorfo que na próxima puxada deveria deixar-se aspirar até ao fundo do fornilho, dando início à lenta transformação em brasa dos fios de tabaco, não o deve fazer esquecer, nem sequer por um instante, a explosão de uma supernova, que se está a produzir na Grande Nuvem de Magalhães, nesse mesmo momento, ou seja, há alguns milhões de anos. A ideia de que tudo no universo se liga e se corresponde nunca o abandona: uma variação de luminosidade na Nebulosa do Caranguejo ou o adensar de uma acumulação globular em Andrómeda não podem deixar de ter uma influência qualquer no funcionamento do seu gira-discos ou sobre a frescura das folhas de agrião no seu prato de salada.

Quando se convence de ter delimitado exactamente o seu próprio lugar no meio da muda extensão das coisas que vogam no vazio, entre a poeira dos acontecimentos actuais ou possíveis que paira no espaço e no tempo, Palomar decide que chegou o momento de aplicar esta sabedoria cósmica à sua relação com os seus semelhantes. Apressa-se a regressar à vida social, reata conhecimentos, amizades, relações de negócios, submete a um minucioso exame de consciência as suas ligações e os seus afectos. Espera ver estender-se diante de si uma paisagem humana finalmente nítida e clara, sem nevoeiros, na qual ele poderá mover-se com gestos precisos e seguros. Será assim? Nada disso. Começa a embrenhar-se numa embrulhada de mal-entendidos, vacilações, compromissos, actos falhados; as questões mais fúteis tornam-se angustiantes, as mais graves tornam-se banais, perdem importância; tudo aquilo que ele diz ou faz revela-se desastrado, descabido, irresoluto. O que será que não funciona?

Isto: contemplando os astros, ele habituou-se a considerar-se como um ponto anónimo e incorpóreo, quase se esquecendo de que existe; agora, para lidar com os seres humanos, não pode deixar de se pôr em causa a si próprio, e o seu si próprio já ele não sabe onde se encontra. Face a cada pessoa, dever-se-ia saber como se situar em relação a ela, estar-se seguro da reacção que inspira em nós a presença do outro aversão ou atracção, ascendente recebido ou imposto, curiosidade ou indiferença, domínio ou sujeição, atitude de discípulo ou de mestre, espectáculo como actor ou como espectador - e, na base destas reacções e das contra-reacções do outro, estabelecer as regras que se devem aplicar no jogo, os movimentos e contramovimentos a fazer. Por tudo isto, antes mesmo de nos pormos a observar os outros, deveríamos saber bem quem somos nós. O conhecimento do próximo implica esta especificidade: passa necessariamente através do conhecimento de nós próprios; e é exactamente isto que falta a Palomar. Não é só o conhecimento que é necessário, mas também a compreensão, o acordo com os nossos próprios meios e fins e pulsões, o que significa a possibilidade de exercer um domínio sobre as nossas próprias inclinações e acções, que as controle e dirija, mas que não as limite nem as sufoque. As pessoas em quem ele admira a correcção e naturalidade de cada palavra e de cada gesto, antes mesmo de estarem em paz com o universo, estão em paz consigo próprias. Palomar, ao não se amar, tem sempre procedido de maneira a não se encontrar consigo próprio cara-a-cara; é por isso que preferiu refugiar-se entre as galáxias; percebe agora que era pelo encontrar de uma paz interior que devia ter começado. O universo pode talvez estar tranquilo por sua conta; ele certamente não.

O caminho que lhe resta aberto é este: dedicar-se-á, a partir de agora, ao conhecimento de si próprio, explorará a sua própria geografia interior, traçará o gráfico dos movimentos do seu estado de espírito, extrairá dele as fórmulas e os teoremas, apontará o seu telescópio para as órbitas traçadas pelo curso da sua vida, em vez de o apontar para as constelações. "Não podemos conhecer nada que nos seja exterior passando por cima de nós próprios - pensa ele agora - o universo é o espelho no qual podemos contemplar apenas aquilo que aprendemos a conhecer em nós próprios. "

E agora, também esta nova fase do seu itinerário em busca da sabedoria acaba por se realizar. Finalmente, ele poderá abraçar com o seu olhar tudo o que está dentro de si. Que poderá ver? Parecer-lhe-á o seu mundo interior como o calmo e imenso rodar de uma espiral luminosa? Verá navegar em silêncio estrelas e planetas sobre as pálpebras e as elipses que determinam o carácter e o destino? Contemplará uma esfera de circunferência infinita que tem o eu por centro e o centro em cada ponto?

Abre os olhos. O que surge diante do seu olhar parece-lhe algo que viu já todos os dias: ruas cheias de pessoas que têm pressa e que abrem caminho à cotovelada, sem se olharem na cara umas das outras, por entre altas paredes cheias de arestas e de gretas. Ao fundo, o céu cheio de estrelas envia clarões intermitentes, como se fosse um mecanismo encravado, que estremece e range em todas as suas juntas mal oleadas, postos avançados de um universo periclitante, torcido, sem descanso tal como ele.

Italo Calvino, Palomar. Desconheço a edição porque li no original (cara de pedante).

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