quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Em tempos de muita porrada, minha tendência (nos momentos otimistas, claro) foi, no passado, buscar me concentrar em outras coisas, outros interesses, outras atenções.
A questão é: não consigo pensar em nada que me interesse agora.

domingo, 27 de janeiro de 2008

"Porque, afinal, meu celular não tem mais números gravados nem mensagens, e a vontade sincera é de atirá-lo varanda abaixo. Desconfio que talvez não seja bem a queda do celular a desejada. Imagino o corpo em queda e então não seria como submersão, em que se pode voltar à tona. É assustador e delicioso o vento batendo no rosto, como se voasse.
Parece que, a cada tentativa e invariável erro, o buraco é mais fundo e a crise mais forte. E eu vou me desligando do orkut, do msn, das coisas, das pessoas. Quando menos falta sinto delas, menos falta sinto de mim, menos e menos indispensável."
***
"Heidegger diz que não penso, e de fato, enquanto não o leio após tê-lo uma vez lido, pouco me parece que pensemos eu, Foucault, Nietzsche. Parece, de fato, que pensar cuidadosamente - redundância preguiçosa - só se faz quando se pensa o ser, ou , ainda, que o ser nos pede cuidado com o que quer que se pense. Difícil fica saber qual tema não é o ser.
Mas quero ter alguma preguiça e não pensar, ou ao menos tentar ter alguma, enquanto meu cuidado de perfeccionista permitir. Quero ter preguiça e pensar mesquinhamente a moral do Nietzsche. Quero saber se sou ou não sou um ressentido no final das contas. Quero saber se existe ser ou não ressentido sempre, pois me incomoda sê-lo muitas vezes por mais que o evite.
Me incomoda ser o ressentido que não sabe dar um fim ao que me incomoda. Me incomoda o sentimento de back-up friend que, ao mesmo tempo, parece não ter fundamento algum longe de minhas neuroses. Me incomoda não me livrar da obsessão de pensar o que outro pense, de até pensar pelo outro - e D. Corleone acha isso tão útil. Como me livrar da ânsia de viver pelos outros e tornar-lhes a vida mais aprazível, ainda que apenas àqueles que mais amo?
A solidão espreita e, o que é pior, não me parece assim tão ruim agora que passar dias e dias na cama não me é mais estranho. A vida de doente é cada vez mais cômoda, e não me assusta tanto assim ser sozinho (e de nada tenho mais medo nesse mundo).
Cada decepção é uma decepação. Fujo para casa e elimino sites, orkuts, as chamadas extensões de mim mesmo. E me pergunto enfim o que farei quando não houver mais nada a delere além desse meu corpo."
Essa descida assustadora me acompanha há alguns anos. De tempos em tempos cresce a intensidade, talvez a cada emocionante looping - como em uma montanha-russa - siga-se uma grande descida, mas mais provável mesmo é que não haja causalidade alguma e o brinquedo seja um chocalho, cujos grãos sacodem randomicamente enquanto se chocam um com os outros. Talvez seja mesmo um chocalho, mas um chocalho em queda, que afinal se esborrachará no chão, inevitavelmente.
Minha natureza pró-ativa, por um lado, não me deixa ignorar o compromisso profissional de assinar um contrato com meus futuros patrões amanhã para ficar na cama extendendo a bolha da tristeza ao máximo até que exploda e eu possa dela sair, consciente de que o tubinho de sabão está no bolso pronto para soprar uma nova. Um sentimento parecido me impede de recusar convites de amigos que eu gosto de ver, mas que, talvez, meu momento atual peça evitar.
Ao mesmo tempo, a natureza pró-ativa me diz que o mais seguro é apanhar o chocalho em queda, pingar-lhe algumas gotinhas de ácido, amarrar-lhe um pesinho de chumbo e acelerar sua inevitável queda e destruição.
A natureza pró-ativa me ajuda a resolver racionalmente muitos problemas. Principalmente o dos outros. Olhando o meu próprio penso que nunca resolvi o de ninguém.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O universo como espelho

O senhor Palomar sofre muito por causa das suas dificuldades nas relações com o próximo. Inveja as pessoas que têm o dom de encontrar sempre a coisa certa para dizer, o modo certo de se dirigir a cada um; que estão à vontade com quem quer que se encontrem e que põem os outros à vontade; que, movendo-se com ligeireza entre as pessoas, compreendem imediatamente quando se devem defender e tomar as suas distâncias e quando devem ganhar a simpatia e a confiança dos outros; que dão o melhor de si próprias na relação com os outros e que levam os outros a dar o seu melhor; que sabem logo quando podem contar com uma pessoa, em relação a si próprios e em termos absolutos.

"Estes dotes - pensa Palomar com o desgosto de quem não os tem - são coisas concedidas a quem vive em harmonia com o mundo. A esses sucede estabelecer naturalmente um acordo, não só com as pessoas mas também com as coisas, com os lugares, as situações e as ocasiões, com o deslizar das constelações no firmamento, com o agregar dos átomos nas moléculas. Aquela avalancha de acontecimentos simultâneos a que chamamos universo não derruba quem tem a sorte de saber escapar através dos interstícios mais finos, por entre as infinitas combinações, permutações e cadeias de consequências, evitando as trajectórias dos mortíferos meteoritos e interceptando em voo os raios benéficos. Para quem é amigo do universo, o universo é amigo. Pudesse alguma vez - suspira Palomar - ser eu também assim."

Decide-se a experimentar imitá-los. Todos os seus esforços, de agora em diante, irão no sentido de alcançar uma harmonia, quer com o género humano que lhe está próximo, quer com a espiral mais longínqua do sistema das galáxias. Para começar, dado que com o seu próximo tem demasiados problemas, Palomar procurará melhorar as suas relações com o universo. Afasta e reduz ao mínimo a convivência com os seus semelhantes; habitua-se a criar o vazio na sua mente, expelindo para fora dela todas as presenças indiscretas; observa o céu nas noites de estrelas; lê livros de astronomia, familiariza-se com a ideia dos espaços siderais, até que esta ideia se torna um ornamento permanente da sua decoração mental. Em seguida procura fazer com que os seus pensamentos tenham em conta contemporaneamente as coisas mais próximas e as mais longínquas; quando acende o cachimbo, a atenção pela chama do amorfo que na próxima puxada deveria deixar-se aspirar até ao fundo do fornilho, dando início à lenta transformação em brasa dos fios de tabaco, não o deve fazer esquecer, nem sequer por um instante, a explosão de uma supernova, que se está a produzir na Grande Nuvem de Magalhães, nesse mesmo momento, ou seja, há alguns milhões de anos. A ideia de que tudo no universo se liga e se corresponde nunca o abandona: uma variação de luminosidade na Nebulosa do Caranguejo ou o adensar de uma acumulação globular em Andrómeda não podem deixar de ter uma influência qualquer no funcionamento do seu gira-discos ou sobre a frescura das folhas de agrião no seu prato de salada.

Quando se convence de ter delimitado exactamente o seu próprio lugar no meio da muda extensão das coisas que vogam no vazio, entre a poeira dos acontecimentos actuais ou possíveis que paira no espaço e no tempo, Palomar decide que chegou o momento de aplicar esta sabedoria cósmica à sua relação com os seus semelhantes. Apressa-se a regressar à vida social, reata conhecimentos, amizades, relações de negócios, submete a um minucioso exame de consciência as suas ligações e os seus afectos. Espera ver estender-se diante de si uma paisagem humana finalmente nítida e clara, sem nevoeiros, na qual ele poderá mover-se com gestos precisos e seguros. Será assim? Nada disso. Começa a embrenhar-se numa embrulhada de mal-entendidos, vacilações, compromissos, actos falhados; as questões mais fúteis tornam-se angustiantes, as mais graves tornam-se banais, perdem importância; tudo aquilo que ele diz ou faz revela-se desastrado, descabido, irresoluto. O que será que não funciona?

Isto: contemplando os astros, ele habituou-se a considerar-se como um ponto anónimo e incorpóreo, quase se esquecendo de que existe; agora, para lidar com os seres humanos, não pode deixar de se pôr em causa a si próprio, e o seu si próprio já ele não sabe onde se encontra. Face a cada pessoa, dever-se-ia saber como se situar em relação a ela, estar-se seguro da reacção que inspira em nós a presença do outro aversão ou atracção, ascendente recebido ou imposto, curiosidade ou indiferença, domínio ou sujeição, atitude de discípulo ou de mestre, espectáculo como actor ou como espectador - e, na base destas reacções e das contra-reacções do outro, estabelecer as regras que se devem aplicar no jogo, os movimentos e contramovimentos a fazer. Por tudo isto, antes mesmo de nos pormos a observar os outros, deveríamos saber bem quem somos nós. O conhecimento do próximo implica esta especificidade: passa necessariamente através do conhecimento de nós próprios; e é exactamente isto que falta a Palomar. Não é só o conhecimento que é necessário, mas também a compreensão, o acordo com os nossos próprios meios e fins e pulsões, o que significa a possibilidade de exercer um domínio sobre as nossas próprias inclinações e acções, que as controle e dirija, mas que não as limite nem as sufoque. As pessoas em quem ele admira a correcção e naturalidade de cada palavra e de cada gesto, antes mesmo de estarem em paz com o universo, estão em paz consigo próprias. Palomar, ao não se amar, tem sempre procedido de maneira a não se encontrar consigo próprio cara-a-cara; é por isso que preferiu refugiar-se entre as galáxias; percebe agora que era pelo encontrar de uma paz interior que devia ter começado. O universo pode talvez estar tranquilo por sua conta; ele certamente não.

O caminho que lhe resta aberto é este: dedicar-se-á, a partir de agora, ao conhecimento de si próprio, explorará a sua própria geografia interior, traçará o gráfico dos movimentos do seu estado de espírito, extrairá dele as fórmulas e os teoremas, apontará o seu telescópio para as órbitas traçadas pelo curso da sua vida, em vez de o apontar para as constelações. "Não podemos conhecer nada que nos seja exterior passando por cima de nós próprios - pensa ele agora - o universo é o espelho no qual podemos contemplar apenas aquilo que aprendemos a conhecer em nós próprios. "

E agora, também esta nova fase do seu itinerário em busca da sabedoria acaba por se realizar. Finalmente, ele poderá abraçar com o seu olhar tudo o que está dentro de si. Que poderá ver? Parecer-lhe-á o seu mundo interior como o calmo e imenso rodar de uma espiral luminosa? Verá navegar em silêncio estrelas e planetas sobre as pálpebras e as elipses que determinam o carácter e o destino? Contemplará uma esfera de circunferência infinita que tem o eu por centro e o centro em cada ponto?

Abre os olhos. O que surge diante do seu olhar parece-lhe algo que viu já todos os dias: ruas cheias de pessoas que têm pressa e que abrem caminho à cotovelada, sem se olharem na cara umas das outras, por entre altas paredes cheias de arestas e de gretas. Ao fundo, o céu cheio de estrelas envia clarões intermitentes, como se fosse um mecanismo encravado, que estremece e range em todas as suas juntas mal oleadas, postos avançados de um universo periclitante, torcido, sem descanso tal como ele.

Italo Calvino, Palomar. Desconheço a edição porque li no original (cara de pedante).

domingo, 20 de janeiro de 2008

"comparação é uma merda"



mas por favor, alguém reconheça que eu tive um certo trabalho para pegar essas fotos sem a autorização dos retratados e ligue os pontos?

sábado, 19 de janeiro de 2008

Há nesse mundo dois tipos de pessoas...

Esse é um título que eu poderia dar a várias postagens e muitas pessoas também os poderiam. Classificar conhecidos e desconhecidos entre quem faz uma coisa e quem faz outra é quase um hábito, assim como acreditar que tal classificação é confiabilíssima e terminante. Eu não tenho tanta pretensão, mas acho que minha divisão me permite pensar algumas coisas.
Em relacionamentos entre duas ou mais pessoas, há momentos de tensão, momentos de desconfiança, medo... Muitas vezes, esses momentos culminam em um fim de relacionamento, cujo pontapé inicial é em geral dado por uma das partes. Nesse momento, a pessoa que leva o pontapé inicial (na maioria das vezes, na bunda), tende a seguir duas conclusões possíveis. A primeira das conclusões é simples: crer que o outro está com outros interesses, ou que o outro está errado, ou simplesmente não entender o que houve e achar o outro meio louco mesmo.
A segunda conclusão - e aqui eu me encaixo - é a das pessoas que se questionam a respeito de sua culpa: as pessoas que vão se perguntar se fizeram algo de errado, se estão erradas, se estão estranhas, e a partir daí pode-se aprofundar ou não em uma crise exosférica.
Essas pessoas também podem ser aquelas que, antes do momento de crise, já suspeitam que ele vai acontecer em breve, e já se preparam - muitas vezes se armam - contra ele. Tendo a crer que elas são as que tomaram mais porrada na/da vida.1

1. Notem aqui os estudantes de letras e, em especial, os da UFRJ, a forte analogia das categorias interpessoais com as da literatura no/do Brasil.