Engraçado o hábito dos motoristas de van em Niterói, que usam placas de destino "Niterói" quando seu ponto de partida também é Niterói. Olho para essas vans e penso que conseguem oferecer um serviço engraçado: me levar aonde já estou. Ao mesmo tempo, não especificam aonde vão me levar.
Hoje estou com o sentimento das vans "Niterói": sei onde estou e para onde vou, mas também não sei de nada disso e queria ir para outro lugar, um lugar que não sei qual é. A certeza quanto ao amanhã e o depois não me traz segurança nem tranquilidade, e meus pés coçam contra essa certeza, doidos para viajar para não sei aonde.
***
Desde a adolescência me questiono sobre os modos de ver o mundo. Lá pelos 14 anos, lembro que me perguntava se outras pessoas tinham como que óculos que as faziam ver tudo diferente de mim. Ao mesmo tempo, sabia que essa suspeita era inconfirmável e irrefutável empíricamente, dado que havia um consenso entre as pessoas e eu quanto a chamar certa coisa de cadeira e certa coisa de amor, mesmo que o que víssemos quando diante dessas coisas fosse completamente diferente em termos imagéticos/sensíveis.De repente a cadeira, que eu via como aquela tábua com os quatro pés apontados para baixo e o encosto acoplado, era vista pelo meu amigo como uma geleca enorme com quatro ferrolhos por cima e um pouco de geleca flutuante apontando para baixo - ou o que eu chamava de "para baixo". E se o outro visse o mundo completamente "ao contrário", e o que eu chamávamos de "para baixo" fosse visto pelo outro do modo como eu via o "para cima"? Nos entenderíamos, pois apontaríamos o "para baixo" e concordaríamos, enquanto eu olhava para baixo e ele "para cima", que falávamos da mesma coisa.Da mesma maneira, a cor que eu vejo e chamo de amarelo pode ser vista
pelo meu amigo com o tom que eu chamo de azul, mas teremos aprendido a chamar a margarida de amarelo e o mar de azul, independentemente daquilo que fosse a visão que temos cada um daquela cor. Afinal, eu nunca teria nem nunca terei acesso ao que meu amigo vê.
As coisas parecem se complicar um pouco quando estamos lidando com o invisível: os sentimentos, por exemplo. Ainda que saibamos que não sentimos exatamente o mesmo a partir de palavras como "ódio" ou "amor", não é tão fácil concordar com o outro. Talvez isso se deva mais ao fato de o sentimento frequentemente envolver uma visão que o outro tem de mim e que não corresponde à minha visão de mim mesmo. E eu quero --naturalmente? -- corrigir o que o outro vê em mim, como se eu fosse a autoridade máxima no assunto "eu mesmo". Quem disse que sou?
Não vou entrar bem aqui no terreno dos conceitos, pois aí as visões já se carregam de pressupostos, e perdemos também o limite entre o quanto de nossa visão é inerentemente nossa -- e portanto incompartilhável e incriticável -- e quanto dela é conceitual, cultural, herdada -- e portanto compartilhável e criticável.
No fundo, me parece que essas dimensões se confundem, e as visões coisais são influenciadas por sentimentos que também são em parte culturais, morais, formados pelo hábito e pelo consenso. Qual o limite entre isso que sou irremediavelmente e aquilo que me habituei a ser? Entre um modo de ver o mundo que é só meu e as visões que aprendi a ter? O quanto as genealogias são capazes de esclarecer nesse sentido?
Porque pode ser que eu tenha herdado visões que em alguma medida poderiam ser minhas, mas também outras que não me cabem, que não têm a ver com o que sou -- seja lá o que eu for. Talvez a única maneira de descobrir seja através da negação: experimentar ver e ser de outros modos e com isso me desabituar dos arraigados hábitos. Mas até onde também não estaria simplesmente revendo tudo a partir dos meus próprios pressupostos -- sejam eles pessoais/intelectuais imutáveis, sejam afetivos, sejam conceituais?
Até onde é possível abrir mão do que sou? Qual o limite do meu ser? Em algum momento poderei olhar adiante e saber se estou tomando o caminho genuinamente meu ou apenas o habitual que me mandaram (me mandei) trilhar? Pior ainda: em algum momento poderei olhar para trás e discernir onde fui mais genuino e onde não? Ou apenas amarei o caminho que fiz, pois se tornou também ele parte de mim?
Hoje estou com o sentimento das vans "Niterói": sei onde estou e para onde vou, mas também não sei de nada disso e queria ir para outro lugar, um lugar que não sei qual é. A certeza quanto ao amanhã e o depois não me traz segurança nem tranquilidade, e meus pés coçam contra essa certeza, doidos para viajar para não sei aonde.
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Desde a adolescência me questiono sobre os modos de ver o mundo. Lá pelos 14 anos, lembro que me perguntava se outras pessoas tinham como que óculos que as faziam ver tudo diferente de mim. Ao mesmo tempo, sabia que essa suspeita era inconfirmável e irrefutável empíricamente, dado que havia um consenso entre as pessoas e eu quanto a chamar certa coisa de cadeira e certa coisa de amor, mesmo que o que víssemos quando diante dessas coisas fosse completamente diferente em termos imagéticos/sensíveis.De repente a cadeira, que eu via como aquela tábua com os quatro pés apontados para baixo e o encosto acoplado, era vista pelo meu amigo como uma geleca enorme com quatro ferrolhos por cima e um pouco de geleca flutuante apontando para baixo - ou o que eu chamava de "para baixo". E se o outro visse o mundo completamente "ao contrário", e o que eu chamávamos de "para baixo" fosse visto pelo outro do modo como eu via o "para cima"? Nos entenderíamos, pois apontaríamos o "para baixo" e concordaríamos, enquanto eu olhava para baixo e ele "para cima", que falávamos da mesma coisa.Da mesma maneira, a cor que eu vejo e chamo de amarelo pode ser vista
pelo meu amigo com o tom que eu chamo de azul, mas teremos aprendido a chamar a margarida de amarelo e o mar de azul, independentemente daquilo que fosse a visão que temos cada um daquela cor. Afinal, eu nunca teria nem nunca terei acesso ao que meu amigo vê.
As coisas parecem se complicar um pouco quando estamos lidando com o invisível: os sentimentos, por exemplo. Ainda que saibamos que não sentimos exatamente o mesmo a partir de palavras como "ódio" ou "amor", não é tão fácil concordar com o outro. Talvez isso se deva mais ao fato de o sentimento frequentemente envolver uma visão que o outro tem de mim e que não corresponde à minha visão de mim mesmo. E eu quero --naturalmente? -- corrigir o que o outro vê em mim, como se eu fosse a autoridade máxima no assunto "eu mesmo". Quem disse que sou?
Não vou entrar bem aqui no terreno dos conceitos, pois aí as visões já se carregam de pressupostos, e perdemos também o limite entre o quanto de nossa visão é inerentemente nossa -- e portanto incompartilhável e incriticável -- e quanto dela é conceitual, cultural, herdada -- e portanto compartilhável e criticável.
No fundo, me parece que essas dimensões se confundem, e as visões coisais são influenciadas por sentimentos que também são em parte culturais, morais, formados pelo hábito e pelo consenso. Qual o limite entre isso que sou irremediavelmente e aquilo que me habituei a ser? Entre um modo de ver o mundo que é só meu e as visões que aprendi a ter? O quanto as genealogias são capazes de esclarecer nesse sentido?
Porque pode ser que eu tenha herdado visões que em alguma medida poderiam ser minhas, mas também outras que não me cabem, que não têm a ver com o que sou -- seja lá o que eu for. Talvez a única maneira de descobrir seja através da negação: experimentar ver e ser de outros modos e com isso me desabituar dos arraigados hábitos. Mas até onde também não estaria simplesmente revendo tudo a partir dos meus próprios pressupostos -- sejam eles pessoais/intelectuais imutáveis, sejam afetivos, sejam conceituais?
Até onde é possível abrir mão do que sou? Qual o limite do meu ser? Em algum momento poderei olhar adiante e saber se estou tomando o caminho genuinamente meu ou apenas o habitual que me mandaram (me mandei) trilhar? Pior ainda: em algum momento poderei olhar para trás e discernir onde fui mais genuino e onde não? Ou apenas amarei o caminho que fiz, pois se tornou também ele parte de mim?
Um comentário:
era vista pelo meu amigo como uma geleca enorme com quatro ferrolhos por cima e um pouco de geleca flutuante apontando para baixo - ou o que eu chamava de "para baixo"
(mundo líqudo. compra outro liquidificador)
No fundo, me parece que essas dimensões se confundem,
(tudo que é líquido se mescla à outra coisa e não vira mais oposição, ou assim aprendi com alla ivanchikova - enquanto tudo o que é sólido se desmancha no ar, não é?)
Ou apenas amarei o caminho que fiz, pois se tornou também ele parte de mim?
(acho que a ideia é sempre amar a vida como ela foi, como ela te levou até onde você está. e você está errado quanto ao começo do post, a gente nunca chega exatamente ao ponto de partida, mas sempre retorna um pouco mudado, temos o destino das águas, tudo flui [mundo líquido])
desculpa se não me fiz entender, talvez não me preocupe tanto com o leitor... :)
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