terça-feira, 22 de março de 2011

Gente de signo de terra é tudo assim, é?

Assim que acordei, contei:
- Pois é. Sonhei que você paria uma aranha. Na verdade, era mais uma aranha-esqueleto, branca. Mas você a deixava escondida no armário dentro de um pote de sorvete. Como você não cuidava dela, eu e meu primo íamos lá e ela estava sempre meio estressada, com fome...
Voltei a dormir. Horas depois, no início da tarde, enquanto eu trabalhava no computador, ela varria o chão e me deu a resposta. Ao falar do filho cujo nome nunca é mencionado, usava um tom como o de quem comenta a forma das nuvens no céu, a umidade do ar ou o sabor da empada.
- Eu tenho uma interpretação para o seu sonho. A aranha é o seu tio que se matou. Você e seu primo se sentem obrigados a continuar o que ele não terminou, a cuidar do que sobrou dele. Ele é o esqueleto no armário, porque é assim mesmo: vocês nunca ouvem falar dele e ontem você sem querer topou com o nome dele no meio do sistema online da universidade. E você se sente mais assim ainda porque tem o mesmo nome que ele.
É claro que reagi como se ela estivesse me dando informações banais e respondi no mesmo tom que ela: - É. Pode ser.
Horas depois, enquanto ela fritava o bife do jantar, a pergunta:
- E então, o que você achou da minha interpretação pro seu sonho? - Ao mesmo em que realizava suas tarefas banais, trocava os temperos e, em vez de orégano, jogava erva-doce na salada.
- É... um pouco far-fetched, não? - respondi, fingindo uma quase-indiferença.
- É, mas sonhos são far-fetched. - E seguiu falando de sonhos como se fossem coisas técnicas e distantes sobre as quais ela, uma especialista objetiva, pudesse discorrer por horas e horas, se esquecendo completamente de toda a carga emocional que o assunto lhe trazia.

Um comentário:

André Luís Borges de Oliveira disse...

Abandonei o chat por um instante. Valeu a pena.