No fundo, porém, acho que nem mesmo achamos mais e sucumbimos ao grande e poderoso deus do hábito. Tanto é que, quando o extraordinário de fato comparece, nos faz desmoronar.
Na última olhada de hoje, uma amiga com a qual sequer tenho tanta proximidade se lamentava sobre a morte da mãe. Eu vi a mãe uma vez, sentada atrás de mim enquanto assistíamos à amiga que apresentava uma cantata. Era uma mulher de seus quarenta e tantos anos, muito jovial, falante, viva, empolgada. Foi esse nosso único contato.
No entanto, ao saber de sua morte, me descontrolei e liguei desesperado para a amiga que tenho em comum com sua filha para saber notícias ou pelo menos lhe informar de minha notícia incompleta. Estou chorando por uma mãe que mal vi, com cuja filha conversei talvez três vezes até hoje, mas cuja morte me abalou.
Talvez pelo susto que minha mãe me deu alguns meses atrás, eu possa ter alguma ideia do que seja a experiência. Alguma, apenas, felizmente, pois não ouso me considerar capaz de entender ou sentir o que essa menina deve estar sofrendo agora. Ainda assim, como me dói esse desamparo tão grande que deve ser não ter mais um colo, uma confiança - a primeira confiança que temos, não? No fundo talvez seja nosso grande desamparo. Nossas mães nos impedem de vê-lo, nos protegem contra ele, mas no fundo sabemos que não há consolo, objetivo, segurança nenhuma em nosso caminho.
É tudo isso para explicar e sequer deu conta de medir o que estou sentindo. É muito, muito forte. Queria muito te dar um abraço e mentir não na frase, mas na certeza que lhe imprimiria: vai passar.
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