Nas noites abafadas dormia mal, às vezes levantava-se, ia para a frente da casa, ficava olhando as coxilhas e o céu, tendo nos olhos um sono pesado e na cabeça, no peito, no corpo todo uma ânsia que a mantinha desperta e agitada. Não raro, altas horas da noite, acordava com uma sede desesperada, metia a caneca na talha, bebia em longos goles uma água que a mornidão tornava grossa; e ia bebendo caneca sobre caneca, para no fim ficar com o estômago pesado sem ter saciado a sede nem aliviado a ardência da garganta. Muitas vezes o sono só lhe vinha de madrugada alta, e, vendo pela cor do horizonte que o dia não tardava a raiar, concluía que não adiantava ir para a cama, pois, dentro de pouco, teria de acender o fogo para aquentar a água do chimarrão. O remédio, então, era molhar os olhos, lavar a cara, caminhar ao redor do rancho para espantar a sonolência.
Uma tarde, à hora da sesta, Ana Terra tornou a sentir aquela agonia de outras tardes e noites. Era uma sensação que não saberia descrever a ninguém. Seria fome? ... Havia acabado de almoçar, estava de estômago cheio; logo não podia ser fome. Tinha a sensação de que lhe faltava alguma coisa no corpo, como se lhe houvessem cortado um pedaço do ser. Era ao mesmo tempo uma falta de ar, uma impaciência misturada com a impressão de que alguma coisa - que ela não sabia bem claramente o que era - ia acontecer, alguma coisa tinha de acontecer. Revolveru-se na cama, meteu a cara no travesseiro, procurou dormir... Inútil. Ficou de novo deitada de costas, ouvindo o espesso ressonar dos homens dentro da cabana. Viu uma mosca-varejeira entrar por uma fresta da janela e ficar voando, zumbindo, batendo nas paredes, caindo e tornando a levantar-se para outra vez voejar e zumbir... Ana seguia com o olhar os movimentos da varejeira e acabou ficando tonta. Cigarras rechinavam lá fora. E mesmo sem ouvir o barulho do vento Ana sabia que estava ventando, pois seus nervos adivinhavam... Era o vento quente do norte a levantar uma poeira seca. Ana sentia o suor escorrer-lhe pelo corpo todo. O vestido se lhe colava às costas. Puxou toda a saia para cima do peito e ficou de coxas nuas e afastadas uma da outra, desejando água, um banho à sombra das árvores.
Uma tarde, à hora da sesta, Ana Terra tornou a sentir aquela agonia de outras tardes e noites. Era uma sensação que não saberia descrever a ninguém. Seria fome? ... Havia acabado de almoçar, estava de estômago cheio; logo não podia ser fome. Tinha a sensação de que lhe faltava alguma coisa no corpo, como se lhe houvessem cortado um pedaço do ser. Era ao mesmo tempo uma falta de ar, uma impaciência misturada com a impressão de que alguma coisa - que ela não sabia bem claramente o que era - ia acontecer, alguma coisa tinha de acontecer. Revolveru-se na cama, meteu a cara no travesseiro, procurou dormir... Inútil. Ficou de novo deitada de costas, ouvindo o espesso ressonar dos homens dentro da cabana. Viu uma mosca-varejeira entrar por uma fresta da janela e ficar voando, zumbindo, batendo nas paredes, caindo e tornando a levantar-se para outra vez voejar e zumbir... Ana seguia com o olhar os movimentos da varejeira e acabou ficando tonta. Cigarras rechinavam lá fora. E mesmo sem ouvir o barulho do vento Ana sabia que estava ventando, pois seus nervos adivinhavam... Era o vento quente do norte a levantar uma poeira seca. Ana sentia o suor escorrer-lhe pelo corpo todo. O vestido se lhe colava às costas. Puxou toda a saia para cima do peito e ficou de coxas nuas e afastadas uma da outra, desejando água, um banho à sombra das árvores.
Erico Verissimo, O continente I.
3 comentários:
*suspiro*
em determinado momento, drives a lot of people mad.
ai, eu amo tanto esse homem. por que eu não posso casar com o neto dele, deus? por quê?!
sensacional!
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