Todos nós sabemos que o adágio, o provérbio consagrado de toda a escolástica medieval, tanto cristã quanto muçulmana quanto judaica, era nemo dat quod non habet, i.é., ninguém dá o que não tem. É claro: se eu não tenho um anel nesse bolso, não posso dar um anel para ninguém. Isso nos remete a quê? Como pode então Platão dizer que só se pode dar o que não se tem, mas não o que se tem? O entendimento de ninguém poder dar o que não tem só vale para as coisas prontas e acabadas, para os conteúdos já constituídos, para os objetos e as realidades que já estão disponíveis prontos. Nesse tipo de relacionamento [com os objetos e as realidades], vale o princípio do adágio escolástico de que ninguém pode dar o que não tem. Um anel, por exemplo, é uma coisa pronta e acabada, então, para poder dar um anel a alguém, é preciso tê-lo. No entanto, nas relações entre os níveis dinâmicos de realização dos seres e das coisas, muda de figura o princípio e o adágio de que ninguém pode dar o que não tem. Aí é que não se pode dar senão o que não se tem. E em que sentido isso se dá? Dá-se nas relações vivas, que se realizam continuamente no ininterrupto vir a ser e vir a conquistar-se a si mesmo, em que ninguém pode dar o que tem, mas só o que não tem, já que quem desse o que tem não daria, mas tiraria do outro a condição de ser outro e, com isso, toda a possibilidade de receber. Para alguém receber XXX(de mim?) alguma coisa no nível do relacionamento de convivência, no nível de encontros e desencontros entre a criatividade e a transformação das pessoas, é condição de possibilidade que todo receber supõe a preservação da diferença de um em relação a outro. É por isso que quem desse o que tem não daria, mas tiraria do outro a condição de ser outro e toda e qualquer possibilidade de receber, que todos nós já devemos ter conosco e trazer junto com nosso próprio ser.
A maneira com que cada um recebe é exclusiva e própria de cada um e, por isso, para poder aceitar qualquer coisa, temos já de dispor dessa modalidade e dinâmica própria e exclusiva de receber, que é o desdobramento de uma única palavra. Essa palavra é sempre pronunciada na singularidade e não se altera com cada uma de suas repetições e suas formulações, mas se alimenta de suas próprias entranhas para poder possibilitar a acolhida de um encontro que respeita a alteridade do outro e que não pode, por mais que queira, alterar a diversidade e a condição de ser o outro de todos os outros. É isso que constitui o grande desafio e a grande provocação que nos deixou Platão com essa formulação de que ninguém pode dar o que tem, mas só o que não tem. A chamada doutrina (ou teoria) das idéias, portanto, não é de Platão, mas provém e se formulou ao longo da história da filosofia ocidental a partir de uma incompreensão radical de todo ser humano, de todos nós.
Essa incompreensão, sempre e para sempre, nos dificulta ver a realidade em todo real e em qualquer irreal, e obstrui sempre e para sempre tanto a presença quanto a ausência de um ideal e sua idealidade em todas as coisas. É isso que Platão pressiona e acentua com a necessidade insubstituível da idéia, da doação da idéia. Assim, por exemplo, quando alguém se pergunta onde está e existe a universidade ideal – e todos nós fazemos essa pergunta toda vez que queremos questionar e criticar a universidade real – não nos damos conta de que, ao perguntar e para poder perguntar assim, já supomos o ideal e a idealidade de toda universidade. Por isso, a resposta à pergunta é: toda universidade é ideal toda vez que é criticada. Na crítica da universidade real opera e está presente a universidade ideal. Se não estivesse presente e se não houvesse essa ligação com o ideal de universidade, ninguém poderia criticar, registrar nem experimentar que a universidade real deixa a desejar e não cumpre nem exerce totalmente a sua idealidade, o seu ideal de universidade.
Prof. Emmanuel Carneiro Leão, em uma conferência na UERJ ano passado.
3 comentários:
Ave!!!
Essa é uma pancadona.
jun, aqui é o Moto, to como anônimo pq não lembrava da minha senha.
Comentário: Vale a pena ler denovo
Estudo numa faculdade de direito cuja biblioteca não possui livros ou códigos atualizados.
Que os professores não frequentam as aulas.
E posso criticar tudo isso.
heh
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