O exaustor do banheiro soa sobre meus ouvidos. Diz-me ele que o ar muda, que respiro vigor novo de ar novo. Mas será o próprio airar do exaustor uma limitação porque é sempre do exaustor?
Como, na busca de meu próprio, permitir que outros me apontem caminhos? Justo agora que intuía, justo agora que acreditava estar no seio da atmosfera pura da questão. A pergunta do outro é sempre intromissão, e, assim, nego-a. Mas também é sempre possibilidade de abertura e escuta.
Quando se diz que falar ajuda a organizar o que se sente, oponho a pergunta: mas organizar já não desfaz a desordem própria do que se sente? Ou o sentir já é organizado sem que eu saiba? Não devo buscar a desilusão de não pertencer a um sistema? Pertenço e não pertenço, e por isso devo me permitir a carência. A busca do caminho é sempre solitária, sim, mas caminhos se cruzam, ainda que no infinito.
Talvez seja isso que me atraia nos outros que se me dizem paralelos: a possibilidade de encontrar-nos no infinito e extraordinário que nos possibilita mudar. Mas a questão persiste: o ar de meu banheiro é ou não é viciado? Como perceber o viciamento do ar quando só caibo eu no banheiro?
É preciso alternar posições: "isso mesmo, entre no meu banheiro, mas ele é inegavelmente meu, sempre". Mas não é isso inevitável? A propriedade de mim mesmo não me pode ser tomada -- ou ao menos não deveria deixar que assim fosse. Ao mesmo tempo, não se foge do co-habitar. O máximo -- e o mínimo obrigatório -- que se pode fazer um ao outro é in-ter-ferir, ou seja, levar para dentro do outro, do desconhecido, do infinito finito ou finito infinito do horizonte que não cessa de dar nova luz, novo dia, nova-vida-sempre-a-mesma.
O problema de novo: não habitamos o infinito, embora o habitemos. Não se mede nem se diz certamente o infinito; no máximo, se o pode intuir. Mas daí se corre sempre o risco de se perder dentro das certezas de um banheiro. Mas se perder é o mais necessário para quem não quer deixar que a terceira perna nasça novamente, transformando-me em tripé estável e imóvel.
Quero experimentar os limites de meu silêncio, do próprio muco originário que me habita pré-humanamente. Mas, mais uma vez, não posso. Ser humano é estar sempre limitado pela abertura do sendo, é sempre ver apenas o que se dá a ver, é não conhecer a floresta por dar-se sempre na e como clareira. É preciso abrir-me a ver: auscultar, ir ao estrangeiro outro -- o paralelo -- para que me aponte e espante o infinito de mim mesmo. E -- ah -- que dor! É grande ouvir; é se abrir ao mostrar-se e, ainda mais, àquilo que nos aponta o amado paralelo.
Eu sei, eu sei, amar é abrir mão de mim mesmo. Já me falaram da tal de pequena morte. Mas ninguém nunca me disse que abrir mão de "eu" para compreender o "ti" é sempre ser-me mais, porque é alargar-me ao outro indefinidamente.
Sistematizar, no entanto, é preciso. Fingir -- fingere -- é preciso. Necessito de forma para a não-forma e da não-forma para a forma. Resta sempre ouvir-me-te ultimamente. Navegar é imprecisamente preciso, sempre. Lanço-me ao mar ao máximo -- ou busco-o, se é que há máximo, já que não sei dizê-lo, mínimo que sou --, mas sou homem, volto à terra. Quisera a glória de ser anfíbio: ser o verde que escala a secura do baobá espinhoso sem perder a virtude e humildade de lançar-se à água, sempre habitando a borda de mim-ti mesmo. Mas não sou rã.
Sinto ter alcançado a dor última. Ainda, só faço sentir em minha própria minimez de percepção. Incerteza...
Como, na busca de meu próprio, permitir que outros me apontem caminhos? Justo agora que intuía, justo agora que acreditava estar no seio da atmosfera pura da questão. A pergunta do outro é sempre intromissão, e, assim, nego-a. Mas também é sempre possibilidade de abertura e escuta.
Quando se diz que falar ajuda a organizar o que se sente, oponho a pergunta: mas organizar já não desfaz a desordem própria do que se sente? Ou o sentir já é organizado sem que eu saiba? Não devo buscar a desilusão de não pertencer a um sistema? Pertenço e não pertenço, e por isso devo me permitir a carência. A busca do caminho é sempre solitária, sim, mas caminhos se cruzam, ainda que no infinito.
Talvez seja isso que me atraia nos outros que se me dizem paralelos: a possibilidade de encontrar-nos no infinito e extraordinário que nos possibilita mudar. Mas a questão persiste: o ar de meu banheiro é ou não é viciado? Como perceber o viciamento do ar quando só caibo eu no banheiro?
É preciso alternar posições: "isso mesmo, entre no meu banheiro, mas ele é inegavelmente meu, sempre". Mas não é isso inevitável? A propriedade de mim mesmo não me pode ser tomada -- ou ao menos não deveria deixar que assim fosse. Ao mesmo tempo, não se foge do co-habitar. O máximo -- e o mínimo obrigatório -- que se pode fazer um ao outro é in-ter-ferir, ou seja, levar para dentro do outro, do desconhecido, do infinito finito ou finito infinito do horizonte que não cessa de dar nova luz, novo dia, nova-vida-sempre-a-mesma.
O problema de novo: não habitamos o infinito, embora o habitemos. Não se mede nem se diz certamente o infinito; no máximo, se o pode intuir. Mas daí se corre sempre o risco de se perder dentro das certezas de um banheiro. Mas se perder é o mais necessário para quem não quer deixar que a terceira perna nasça novamente, transformando-me em tripé estável e imóvel.
Quero experimentar os limites de meu silêncio, do próprio muco originário que me habita pré-humanamente. Mas, mais uma vez, não posso. Ser humano é estar sempre limitado pela abertura do sendo, é sempre ver apenas o que se dá a ver, é não conhecer a floresta por dar-se sempre na e como clareira. É preciso abrir-me a ver: auscultar, ir ao estrangeiro outro -- o paralelo -- para que me aponte e espante o infinito de mim mesmo. E -- ah -- que dor! É grande ouvir; é se abrir ao mostrar-se e, ainda mais, àquilo que nos aponta o amado paralelo.
Eu sei, eu sei, amar é abrir mão de mim mesmo. Já me falaram da tal de pequena morte. Mas ninguém nunca me disse que abrir mão de "eu" para compreender o "ti" é sempre ser-me mais, porque é alargar-me ao outro indefinidamente.
Sistematizar, no entanto, é preciso. Fingir -- fingere -- é preciso. Necessito de forma para a não-forma e da não-forma para a forma. Resta sempre ouvir-me-te ultimamente. Navegar é imprecisamente preciso, sempre. Lanço-me ao mar ao máximo -- ou busco-o, se é que há máximo, já que não sei dizê-lo, mínimo que sou --, mas sou homem, volto à terra. Quisera a glória de ser anfíbio: ser o verde que escala a secura do baobá espinhoso sem perder a virtude e humildade de lançar-se à água, sempre habitando a borda de mim-ti mesmo. Mas não sou rã.
Sinto ter alcançado a dor última. Ainda, só faço sentir em minha própria minimez de percepção. Incerteza...
